A queda antes da queda: o colapso epistemológico da autoridade ditatorial
DOI:
https://doi.org/10.36592/opiniaofilosofica.2026.v17.1341Palavras-chave:
Autoridade Política, Legitimidade Epistêmica, Ditadura, Violência, Queda RealResumo
Nas análises políticas convencionais, a queda de um ditador costuma ser compreendida como um acontecimento histórico e datável, realizado por meio da morte, de um golpe de Estado ou do exílio. Este artigo critica essa concepção e argumenta que a queda da ditadura é, antes de tudo, um acontecimento no plano do sentido e da legitimidade política, que se constitui no horizonte da consciência coletiva antes de se manifestar como evento temporal. Segundo essa abordagem, a autoridade política — mesmo em suas formas mais violentas — depende da possibilidade de justificação racional e de aceitação subjetiva; quando essa possibilidade se perde, a autoridade colapsa do ponto de vista da verdade, ainda que as estruturas de repressão permaneçam. Ao distinguir entre “queda real” e “queda temporal”, o artigo mostra que a queda temporal é consequência da queda real, e não o inverso. Pela análise da reação do ditador às manifestações sociais, sustenta-se que a violência nua não é sinal de poder, mas indício de sua ausência. O texto examina a justificação da violência em nome do bem do povo à luz da lógica prática, demonstrando que tal justificação apresenta uma estrutura falaciosa, marcada por contradição prática, petição de princípio e uma reivindicação de representação sem fundamento racional. Por fim, o artigo argumenta que a violência política não garante sobrevivência, mas revela o colapso da autoridade do ditador, ao expor o momento em que ele perde a capacidade de oferecer um futuro defensável como fundamento legítimo da ordem política. Nessa perspectiva, a queda das ditaduras realiza-se no nível da verdade e da consciência coletiva antes de ser registrada, abrindo um novo horizonte para a compreensão da relação entre poder, violência e legitimidade na teoria política.
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