Metodologia na historiografia da filosofia brasileira

Autores

DOI:

https://doi.org/10.36592/opiniaofilosofica.2025.v16.1323

Palavras-chave:

Historiografia da filosofia brasileira, Cruz Costa, Bento Prado Jr, Sistema de obras, Complementaridade texto–contexto, Deriva histórica

Resumo

O artigo examina o problema metodológico de como escrever a história da filosofia brasileira, concentrando-se na tensão entre abordagens historicistas e estruturalistas e em seus efeitos sobre a interpretação do pensamento brasileiro do século XIX. Seu objetivo é reavaliar os principais modelos historiográficos – especialmente o historicismo de Cruz Costa e a leitura estruturalista de Bento Prado Jr. – e propor um método alternativo que faça justiça tanto à racionalidade textual das doutrinas quanto à sua inserção histórica concreta. O problema central é duplo: por um lado, a tese negacionista amplamente difundida, segundo a qual não haveria, no Brasil oitocentista, um verdadeiro sistema de obras filosóficas; por outro, a redução da historiografia, ora à evolução de uma suposta “alma nacional” (com viés psicologista e historicista), ora a uma série de cortes epistemológicos descontínuos, desligados de suas condições causais e sociais. O artigo se organiza em três movimentos principais: (1) reconstrução das teses de Bento Prado Jr. sobre a inexistência de um sistema filosófico no século XIX brasileiro e sobre os limites do historicismo e do psicologismo; (2) avaliação crítica dessas teses, mostrando que, quando se aplicam à filosofia brasileira oitocentista os critérios de “sistema de obras” formulados por Antonio Candido, é possível identificar autores, obras, público e redes temáticas que configuram um sistema filosófico efetivo; (3) apresentação de um método alternativo, fundado na complementaridade entre texto e contexto e na noção de “deriva histórica”, que articula continuidade e descontinuidade sem recorrer nem a um espírito nacional metafísico, nem a um estruturalismo ahistórico. O resultado principal é uma requalificação positiva da filosofia brasileira do século XIX e a formulação de um quadro historiográfico mais equilibrado, capaz de integrar razões e causas, doutrinas e condições sociais, no estudo das tradições filosóficas brasileiras.

Biografia do Autor

  • Paulo Margutti, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia - FAJE

    Possui graduação em Filosofia pela UFMG (1967), mestrado em Filosofia Contemporânea pela UFMG (1979) e doutorado em Filosofia pela University of Edinburgh (1992), com tese sobre Wittgenstein. Atuou como membro da Comissão de Avaliação de Cursos de Pós-graduação em Filosofia da CAPES, de 1998 a 1999. Foi pesquisador 1A do CNPq de 2003 a 2012, tendo inclusive coordenado o Comitê Assessor de Filosofia entre 2010 e 2012. Foi professor da UFMG de 1978 a 2006, quando se aposentou na categoria de titular. Foi também professor titular da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE/MG), de 2006 a 0210. Em 2013, voltou a trabalhar como professor titular da FAJE/MG. Tem experiência nas áreas de lógica, filosofia da linguagem e filosofia no Brasil.

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Publicado

2025-12-31

Como Citar

MARGUTTI, Paulo. Metodologia na historiografia da filosofia brasileira. Revista Opinião Filosófica, Porto Alegre, v. 16, p. 1–32, 2025. DOI: 10.36592/opiniaofilosofica.2025.v16.1323. Disponível em: https://opiniaofilosofica.org/index.php/opiniaofilosofica/article/view/1323.. Acesso em: 24 out. 2026.